Uma porta de entrada

Atualizado: 1 de Dez de 2018



Godelieve Denys-Struyf dizia que, mais importante do que saber "quem sou", é me perguntar: "em que trecho da minha Onda estou?"


Todos nós, desde a infância e por toda a vida, vivenciamos cada uma das etapas da Onda, sucessivamente. Há momentos em que estamos "vibrando" mais em AM, outros em PA, outros em PM... Às vezes buscamos mais a introspecção, de repente ficamos mais a fim de festa. Há o tempo de gestar e o tempo de realizar, o tempo de criar e o tempo de digerir, o tempo de agir e o tempo de pausar.

GDS dizia, também, que a gente só acessa o outro por onde a porta está aberta. Tentar arrombar uma porta fechada só irá disparar os alarmes e os mecanismos de defesa.


Estamos falando tudo isso para explicar de que maneira a interação com o livro Como ser uma onda pode funcionar como uma ferramenta de reconhecimento do trecho da Onda que se revela com maior intensidade na criança, permitindo a identificação destas "portas abertas", destes canais de comunicação. Isso não significa, necessariamente, que aquela criança funcione sempre da mesma forma, pode ser que o resultado seja diferente até mesmo no dia seguinte, mas representa uma via de acesso privilegiada para aquele momento, como uma foto polaroid da expressão psicocorporal. Essa tomada de consciência permite fazer melhores escolhas quanto ao tipo de abordagem que será proposta em cada situação. Talvez, naquele dia, a criança esteja mais propensa a ouvir uma história cheia de magia. Em outra fase, ela pode ser mais motivada por uma atividade que envolva desafios, inclusive intelectuais. Haverá o período em que ela terá necessidade de sentir-se acolhida, tocada, e haverá aquele em que ela estará explodindo de movimento. Escolher a porta de entrada mais favorável será extremamente útil, até mesmo para, uma vez dentro da casa, poder circular por todos os cômodos, por todas as fases da Onda, por todas as modalidades de funcionamento.


A talentosa menina que está desenhando nas fotos deste post tem 10 anos e foi apresentada ao livro neste mesmo dia. Rapidamente (e de forma muito autônoma), ela compreendeu todo o mecanismo. As fases, que se repetem a cada página, correspondem às palavras grifadas, cujas cores seguem à ordem estabelecida nas imagens, etc. Tudo claríssimo. Ela resolveu criar suas próprias ondas, misturando os personagens, porém respeitando o conceito. Sua proposta, inicialmente, era seguir a ordem das fases da Onda estabelecida no livro. O primeiro personagem a ser reproduzido foi o leão. Ao completar a primeira onda, ela percebeu que só tinha escolhido personagens da última fase (leão, foguete, flecha), ficando muito surpresa: "Ih! Errei!!!".



Eu logo disse a ela que não havia erro algum, que o desenho era dela e ela poderia criar o que quisesse, do jeito que mais gostasse. Resolveu, então fazer uma onda para cada fase, começando pelo pião, mola e... Caracol! De novo se surpreendeu: "Ai, errei de novo!" Eu mostrei a ela que, na verdade, ela tinha colocado o caracol no lugar certinho dele, bem aconchegado no oco da onda, e que ela tinha toda a liberdade de desenhar o que bem entendesse. Ela decidiu não mais respeitar as fases e foi logo desenhando a borboleta na onda restante, confirmando o impulso inicial de preferir as imagens PM. Esta é uma pista para uma porta de entrada, no caso desta menina, que inclui a compreensão dos mecanismos através do raciocínio lógico (entre outras coisas, é claro). Possivelmente, se eu fosse continuar a trabalhar com ela, de pouco adiantaria eu propor uma abordagem corporal de caráter mais vivencial, sem que ela tivesse o entendimento dos porquês, dos objetivos. O que não significa que ela não fosse aproveitar - e muito - uma proposta mais ligada ao universo de PA ou AM. Trata-se apenas de identificar por onde é mais fácil "quebrar o gelo".... E isso pode fazer toda a diferença!



Foi super interessante observar isso ao longo do próprio processo de elaboração do nosso livro. A Claudia (ilustradora que criou as lindas imagens que povoam nossas páginas), passou por diversas experiências, tanto vivenciais quanto intelectuais, para compreender os significados relacionados ao conceito da Onda do Crescimento, para que pudesse desenvolver um trabalho realmente consistente. Então, ela sabia exatamente do que se tratava, e tinha todas as habilidades técnicas necessárias para dar vida às suas ideias. Curiosamente, era sempre nas figuras PM que o leão ficava meigo demais, o índio/flecha ficava meio tímido, o menino que se abria em velas não estufava o peito de jeito nenhum. Não por acaso, é fácil perceber na Claudia um modo de funcionamento predominantemente com um colorido PA e AM, e isso ficou muito evidente na facilidade com que ela manifestou essas duas tipologias nas imagens que criou. O caracol, a girafa, a menina pendurada pelos cabelos no céu, a concha aconchegante... praticamente definitivos e intocados desde a primeira versão. A referência de PA e AM estão naturalmente incorporadas nela, não demandam o mesmo esforço de PM em sua representação. O mais importante foi perceber isso e se permitir transitar na própria onda. No final, o resultado foi pura realização!


Para Godelieve Denys Struyf, após completar a Onda do Crescimento, prosseguimos percorrendo Ondas de Consciência pela vida inteira. O mundo simbólico expresso nas ondas do nosso livro pode ser um elemento deflagrador para inúmeras descobertas a respeito das nossas crianças. Mas também pode favorecer tomadas de consciência para nós, adultos, sobretudo se tivermos a sabedoria de cuidar com muito carinho da criança que habita dentro de nós.

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© Como ser uma onda // 2019 // Rio de Janeiro

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